A SEMENTE DO CAOS, de Renan Santos (Resenha + entrevista com o autor)

Como estamos de quarentena, querides? Muita preguiça, muito trabalho? Espero que vocês aí estejam bem, devidamente enfurnados em casa e lavando bem as mãos.
De qualquer forma, apesar dos gaps constantes aqui no blog, cedo ou tarde eu sempre volto com uma postagem nova. Não é agora que vou trazer um autor inédito aqui, já fiz outra resenha de uma noveleta no Renan, “A canção das sereias”, mas cá estamos nós de novo.
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Pois muito que bem, “A semente do caos” é um livro que se passa no mesmo universo que a noveleta, então eu não estava exatamente vendo uma novidade (mas se você ainda não leu “a canção das sereias”, pode ler “a semente do caos” sem medo mesmo assim), e apesar disso o livro ainda mostra várias facetas novas da criação do Renan, e também aponta um desenvolvimento legal dele enquanto escritor. É um romance fantástico com reinos, magia e batalhas, então é a pedida perfeita pra quem gosta desse tipo de conteúdo, só que feito de um jeito legal e não clichê.
Acredito que já elogiei isso na outra resenha, e volto a elogiar de qualquer modo: acho que o ponto forte de “a semente do caos” é o universo, sem mais, o que é algo MUITO positivo quando falamos de um livro de alta fantasia. Você sente a profundidade e a complexidade daquele mundo, apesar de muitas vezes deixar o leitor um pouco à deriva sobre o que tá rolando ou sobre o que as personagens estão falando, e eu pessoalmente senti falta de algumas explicações a mais sobre muitas coisas. Não é que precise desenvolver mais, veja bem. A gente tem a clara percepção de que nada é citado sem estar muito bem lapidado, a única coisa é que nem sempre entendemos exatamente do que se trata. Infelizmente isso é um ponto negativo da obra, mas eu não acho que atrapalhe muito no entendimento da história, “só” deixa o leitor um pouco de lado sobre o que acontece, o que fica especialmente evidente quando se trata do sistema de magia e do background histórico e social que baseia a trama.
De qualquer forma, outra coisa que considero muito boa nas construções do Renan são as personagens: elas conseguem ser únicas e características sem serem caricatas ou clichês, o que acho admirável e ajuda muito a criar simpatia (ou antipatia) por eles. Além disso, eles são fieis ao seu objetivo e sua personalidade, sem fazerem coisas bizarras por pura conveniência. Em geral, não são personagens simples ou previsíveis, e cada um consegue te despertar emoções e noções diferentes.  
Apesar de não ter uma narrativa linear e fácil de seguir e de escrever, acredito que Renan tenha conseguido costurar muito bem todos os pedaços distintos de enredo até que, ao final do livro, todos tivessem mais ou menos se encaminhado para um ponto comum, o que acho bastante admirável porque esse trabalho não é fácil de criar ou administrar, mas foi tudo desenvolvido no ritmo certo e os pontos de convergência entre uma linha narrativa e outra foram bem colocados e desenvolvidos, de forma que tudo fluísse de forma bastante natural.
Em resumo, foi uma obra que eu gostei bastante de ler e recomendaria a leitura. Mesmo sendo uma obra de alta fantasia com um cenário “clássico” (quase medieval, com seres místicos e batalhas), ainda assim a forma como o universo se constrói e se desenvolve ajuda a tornar a história não clichê dentro das obras de alta fantasia, e acho que boa parte disso se deve ao fato do sistema de magia ser bastante característico.
Sem mais delongas, vamos ver um pouco do que o autor tem para falar sobre sua obra! Com a palavra, Renan Santos. (As respostas podem não ter as palavras exatas da entrevista, visto que foram levemente adaptadas para esse modelo. Entretanto, a essência do que foi dito ainda está fidedigna).

Gabby Meister: Como foi a criação do universo?
Renan Santos: Essa é uma pergunta difícil. A ideia começou quando eu tinha uns 10 anos, quando eu assistia Yu-Gi-Oh. A carta “guardião celta” me marcou muito, e desde então comecei a criar essas histórias com espadas maneiras e poderes mágicos, e assim Erys nasceu. É claro que fui desenvolvendo melhor com o tempo e pegando outras inspirações, como a série Lost, que moldou demais a forma como eu escrevi esse livro, e nem sei teria escrito se não fosse pela inspiração que ela me trouxe. Usei o anime Hunter x Hunter pra me ajudar com o sistema de magia e tirei de lá boa parte dos conceitos sobre os cavaleiros do meu universo.

GM: Aproveitando que você tocou nesse assunto, o sistema de magia realmente é uma das coisas mais marcantes da sua saga. Pelo que entendi, tem uma relação muito forte com o jeito e a personalidade de cada personagem, e então me surgiu a dúvida: é a personalidade que define qual é o tipo de magia ou é a magia que define como vai ser a personalidade? Explica um pouco melhor como isso funciona.
RS: Eu queria criar um sistema de magia mais baseado em ciência (olha minha formação acadêmica influenciando meu estilo). Como nas ciências em geral (no mundo real), nós não sabemos a verdade verdadeira, apenas criamos modelos e teorias que tentam explicar o funcionamento do universo, baseado em observações, e com a magia em Erys é a mesma coisa, ninguém realmente sabe como ela funciona. Tratam a magia como se fosse uma ciência a ser estudada e teorizada, e a teoria mais aceita é de que tem sete afinidades, muitos estudiosos acham que pode haver relação entre a afinidade mágica e a personalidade, mas ninguém nunca chegou a uma conclusão definitiva, nem mesmo existe um teste realmente eficaz pra definir sua afinidade, você que precisa sentir e testar sozinho até descobrir, e eu acho que isso é uma das coisas mais interessantes do sistema de magia, já que a maioria das histórias que vemos por aí têm um sistema bem definido e todo mundo sabe exatamente como funciona, mas em Erys não é assim. Mesmo com tantos estudos sobre esse sistema, ele ainda é um mistério ali, assim como no mundo real a gente não sabe exatamente como funciona o universo e tudo o mais, estamos apenas descobrindo aos poucos.

GM: E nos próximos livros você pretende detalhar melhor o sistema de magia, os eventos históricos citados e coisas assim? Quais são os planos pra esses pedaços do seu enredo?
RS: Sim, eu pretendo explicar melhor todas essas coisas, acredito que tenham ficado um pouco vagas em “A semente do caos”, mas talvez eu coloque alguns novos eventos históricos e novas informações. De qualquer jeito, vou tentar me controlar, senão vai virar um compilado histórico e acabo deixando a trama em segundo plano.

GM: Nos próximos volumes a gente pode esperar novidades, coisas que você ainda não falou em “A sementes do caos”, ou vai ser mais o desenvolvimento do que já tem até agora? Fico curiosa pra saber porque, em relação à noveleta de “A canção das sereias”, apareceu muita novidade, tanto no sistema de magia quanto na história e na sociedade de Erys.
RS: Então, vai ter muita novidade sim, tanto em novos romances como em contos ou noveletas, porque Erys é muito grande e só apresentei um pedaço dela. A ideia é que cada romance aconteça em um lugar de Erys, com tramas mais ou menos independentes. Já posso adiantar que o segundo livro vai focar no clã da Espada, embora o começo se passe no clã da Lua, então vamos conhecer melhor a princesa Mëyrin e seu mundo. O terceiro (e talvez o quarto, se eu precisar dividir) vai focar mais no continente Yshan. Eu gosto de brincar com estilos, então esse livro foi mais fantástico, o segundo provavelmente vai ser mais faroeste. Talvez o terceiro seja puxado pra uma aventura com terror, e em cada livro o cenário vai se expandindo, dando mais detalhes da sociedade, da cultura, da magia, da história, etc.

GM: E sobre suas personagens, como foi o processo de criação? Dá pra perceber que elas são complexas e bem construídas.
RS: Certo, vou dar umas dicas pra quem tá começando. Primeiro, observe as pessoas ao redor e não tenha medo de usar o que você vê pra criar seus personagens. Misturar traços de diferentes pessoas em um único personagem pode ser uma boa, e usar traços seus também é legal porque você se conhece bem (eu espero), só não jogue tudo num personagem só, já que você é um ser muito complexo. 2 ou 3 características para a personagem A, mais 2 pra personagem B e assim vai. Outra coisa importante: não se assuste quando as personagens começarem a tomar decisões por conta própria, apenas escreva e depois se certifique de que aquilo é coerente com a personagem e com a história. Uma coisa legal que eu também faço é criar arcos pros meus personagens, tipo fazê-los passar por um desafio em que precisem enfrentar alguma característica deles mesmos.

GM: Você tem alguma previsão de quando vai sair o próximo livro? Algum comentário adicional sobre “a semente do caos” ou sobre o que vem pela frente?
RS: Então, até agora não tenho nenhuma previsão. Já comecei a trabalhar nele e vai se chamar “Era uma vez em Nänt”, mas confesso que fiquei meio desanimado com esse universo (coisa de escritor). Quer dizer, não sou ninguém por quem os leitores imploram pelos novos livros, não é? Um dia vou terminar, já que é como um legado que quero deixar pro mundo, só não sei quando. Mais fácil ter uma nova história da Lynöre e Reyón, pois são narrativas mais curtas e já tenho ideias pras próximas histórias delas, mas por enquanto tenho outros projetos literários em mente: o primeiro é uma história com três contos que têm ligação, mas são separados por séculos, vai se chamar “um conto de carnaval”. Também quero terminar um romance de realismo mágico chamado “apartamento 802”, que já tá pela metade e se passa no Rio de Janeiro, e por fim tenho um romance que acontece no universo espectral, mais focado no drama do que na parte mágica, e se chamará “almas magnéticas”. São apenas títulos provisórios, mas as ideias tão em andamento. De qualquer forma, ainda quero escrever mais sobre o universo de Erys, só que é um trabalho de uma vida toda, seria como o que a Torre Negra é pro King, tenho uma ligação emocional muito forte com minha história. Leiam ela, leiam todas as minhas histórias, se for possível, escrevi com muito carinho.

Espero que tenham gostado da resenha e da entrevista! Todos os materiais do Renan estão disponíveis na Amazon, então vocês podem conferir lá!
Obrigada por lerem até aqui,


Gabby Meister


[A resenha acima tem por único objetivo divulgar minha visão e opinião pessoal sobre o livro citado, e não visa ofender ou difamar ninguém, nem mesmo difamar a obra ou o autor dela. É apenas meu ponto de vista, questionável e discutível]

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