1984, de George Orwell (Resenha baseada em teoria da história)
Ao
contrário do que muita gente pode imaginar, George Orwell foi um pró socialista
bastante ativo, inclusive participando do Partido Operário de Unificação
Marxista, como mostra um artigo da Revista Galileu[1],
mas antes disso o autor serviu ao exército britânico e passou muito tempo
vivendo nas ruas. Sendo assim, qualquer interpretação de George Orwell que
desconsidere essa filosofia e sua vivência estará longe do real significado do
que ele quis passar.
De
forma resumida, o livro trata de um universo distópico onde o “capitalismo” foi
derrotado e substituído por um regime “livre”, que na verdade é uma ditadura
pesada comandada pelo Grande Irmão (que, acredito eu, é apenas uma ideia e não
realmente presenta uma pessoa, pelo menos não no período entre que a história
se passa). Esse governo autoritário mostra inúmeros sinais de fascismo: o ódio
total ao inimigo (muitas vezes imaginário) e uma forte cultura de guerra que
valoriza o Estado; a autoridade carismática do Grande Irmão também se mostra um
pilar essencial para governos fascistas, assim como a necessidade de defender a
tradição nacional, o que em geral leva a uma hierarquia que pretende manter a
ordem e à criação de heróis nacionais[2].
Os mitos que tradicionalmente sustentam os governos fascistas também se veem
presentes no livro de Orwell, como o mito palingenético (regeneração feita pelo
Novo Estado), mito do novo nacionalismo (institucionalização do destino
nacional), mito imperial (nação com vocação imperial e colonizadora) e vários
outros[3].
Pode parecer besteira, mas por incrível que pareça, o trecho “(...) apostava a
fundo nos novos veículos de moderna propaganda – o cinema, o rádio, o cartaz,
(...) encenava festas populares, cortejos históricos (...) SPN era, sobretudo,
um espaço de enunciação e de recriação simbólica das obras e dos valores do
governo e do Estado Novo” (ROSA, 2001, p. 1043) é referente ao governo do
ditador português Salazar, apesar de facilmente lembrar a dinâmica do livro
1984.
Entretanto,
ao contrário de outras ditaduras fascistas que vimos no decorrer da história, o
governo do Grande Irmão vai muito longe para garantir seu controle, porque o
controle dos corpos não mais bastava (e também não basta aos ditadores; é
preciso dominar as mentes também). A figura da polícia do pensamento surpreende durante todo o livro, não por sua
presença, mas por sua eficácia: a vigia não é tão necessária se você cultivar o
medo constante de estar sendo vigiado; de pouco adianta destruir o corpo de
quem desobedece, porque ideias não morrem. Aliás, o próprio termo duplipensar (“é perfeitamente aceitável
acreditar em duas ideias controversas ou mutuamente excludentes”) já
exemplifica muito bem a que veio essa polícia, e todo o idioma novo
(novilíngua) mostra a mudança radical que eles impõe ao pensamento (e também
serve para vermos como o idioma está diretamente ligado ao modo como concebemos
ideias, mas isso é assunto para outra ocasião). O duplipensar é constantemente aplicado durante a guerra contra a
Eurásia/Lestásia, visto que o inimigo muda a cada segundo, bastando que o
Grande Irmão o diga, e então toda a antiga verdade é apagada, porque ali a
verdade é relativa: vale o que é dito pelo Grande Irmão e, se o que ele diz não
é condizente com o que estava em um jornal ou livro, então basta destruir essa
informação. Não se pode fazer o mesmo com as memórias, mas é para isso que
serve o duplipensar. Para garantir
que isso será bem aplicado, também foi criado o termo crimedeter, onde o cidadão desde pequeno é ensinado a barrar
pensamentos que possam distorcer ou questionar a verdade do Grande Irmão.
Apesar
de esse tipo de prática parecer restrita aos livros de distopia, a
historiografia recente nos mostra que isso não é uma realidade tão absurda.
Quando pensamos nos mecanismos de vigilância dentro do capitalismo[4]
(hoje, na era da informação, são quase totalmente baseados em bigdata), notamos que esse sistema de
vigília fabrica suas próprias relações e inter-relações, suas concepções
sociais e suas estruturas de poder, como acontece no universo de Orwell, e são
capazes de moldar profundamente a sociedade, pois “sistemas impessoais de
disciplina e controle produzem certo conhecimento no comportamento humano
independentemente do consentimento” (ZUBOFF, 2018, p. 42).Em 1984, no lugar do bigdata, a polícia do pensamento utiliza
teletelas em todos os lugares, mesmo onde devia haver privacidade (como nos
banheiros) e aquilo já era normal para as pessoas, pois estar constantemente
sob vigília te faz ficar anestesiado.
Nesse
sentido, a lógica 24/7 do capitalismo[5]
também faz a mesma coisa, excluindo o ser humano dos processos importantes de
controle e o robotizando o máximo possível, e isso porque o estímulo
ininterrupto e monótono tira a capacidade reativa, de forma que nossas percepções
são reconfiguradas com base no novo ritmo (muitas vezes insano). Assim como
controlar o tempo e a comunicação se torna imprescindível nesse mundo 24/7,
vemos que isso também sustenta o Novo Estado de 1984.
“‘Prática-inerte’
foi o modo como Sartre designou o mundo cotidiano sedimentado,
institucionalizado, construído de energia humana, mas que se manifesta como o
imenso acúmulo de atividade passiva rotineira.” (CRARY, 2013, p. 125), e é
exatamente isso que vemos nessa distopia. Sendo assim, apesar de o governo do
Grande Irmão vender a ideia de um regime anti-capitalista, percebemos que ele
adota suas medidas em níveis extremos (fascistas), e aí está a beleza e a
sutileza da crítica de Orwell, e também dá um aviso importante sobre ditadores:
eles nunca conseguem chegar ao poder sem manipular a verdade, e isso muitas
vezes inclui inverter seus princípios com os princípios do inimigo, se isso for
vantajoso.
[1]
LOPES, Larissa. 8 fatos sobre George Orwell, autor de “a revolução dos bichos”
e “1984”. Revista Galileu, 26 de
jun. 2018. Disponível em: <https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2018/06/8-fatos-sobre-george-orwell-autor-de-revolucao-dos-bichos-e-1984.html>
[2]
CALERO, Francisco Sevillano. A “cultura da guerra” do “novo Estado” espanhol
como princípio de legitimação política. In: ROLLEMBERG, Denise & QUADRAT,
Samantha (orgs.). A construção social dos
regimes autoritários. Legitimação, consenso e consentimento no século XX –
Europa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 257-282.
[3]
ROSAS, Fernando. O salazarismo e o homem novo: ensaio sobre o Estado Novo e a
questão do totalitarismo. In: Análise
social: revistado Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
(157) vol. XXXV, Inverno de 2001, p. 1031-1054.
[4] ZUBOFF,
Shoshana. Big Other: capitalismo de vigilância e perspectivas para uma
civilização de informação. In: GUILHO, Luciana (e outros) (orgs.). Tecnopolíticas de vigilância: perspectivas
da margem. São Paulo : Boitempo, 2018.
[5]
CRARY, Jonathan. 24/7: capitalismo tardio
e os fins do sono. São Paulo: Ubu editora, 2013.
Gabby Meister
Adorei tua análise. Me trouxe algumas reflexões a mais sobre o livro.
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