ME APAIXONEI PELO MEU SEQUESTRADOR, de Letícia Bartulihe (Resenha)
- INTRODUÇÃO
Antes de partir para a resenha propriamente dita (e acho que será a mais longa que já fiz até agora, porque quero justificar tudo pra depois não ser chamada de implicante), me sinto na obrigação moral de explicar por que eu parei minha vida para ler esse livro. Quero me justificar em especial para meus colegas escritores independentes que devem ter ficado decepcionados por notar que seus amados livros foram pra fila de espera (não que seja uma grande dádiva ser lido por mim) pra que eu pudesse degustar dessa obra tão... Tão... É.
Eu não sei se a autora ultimamente tem se empenhado mais em divulgar o livro ou se o Facebook decidiu que só agora iria me bombardear de posts falando sobre Me Apaixonei Pelo Meu Sequestrador. Independente do que tenha acontecido, eu não fui atrás da obra pelo desejo de ler um romance clichê (e sim, eu releio Crepúsculo escondido sempre que quero uma boa de dose de romance questionável e totalmente irreal).
Eu abri o livro de Letícia porque o romance prometia se pautar em um sequestro e, pela lógica, seria baseado em síndrome de Estocolmo (se você nunca ouviu falar nisso, é melhor dar um Google antes de continuar lendo a resenha). Eu gostaria de conhecer histórias com essa temática, e OBVIAMENTE não romantizo sequestro, abuso ou qualquer tipo de violência (não importando o gênero ou sexualidade dos envolvidos), por um motivo bem pontual: minha primeira história*, criada há 10 anos, quando eu era uma criança brincando de escrever, tem um casal que passa por isso. Ele é sequestrado e torturado, por muito tempo tenta matar sua torturadora, mas depois percebe que se apaixonou por ela. A história não é pautada nisso, é uma fantasia que por acaso calhou de ter esse acontecimento.
O meu maior problema com esse casal é que, há 10 anos, eu não tive muita noção do que isso significava. Eu era uma criança de 12 anos experimentando cenas no papel, e demorei 6 anos pra entender que aquilo era intragável. Ainda assim, considerando toda a construção (e desconstrução) psicológica do personagem para chegar a isso, eu não pensei em mudar nada. Tomei cuidado para não romantizar o acontecido, o que é mais complicado quando se narra em primeira pessoa (o que também é o caso do livro de Letícia), e a linha entre os sentimentos do personagem e o dedo opinativo do autor é muito tênue, mas PRECISA existir nesses casos. Eu quero esclarecer que não estou aqui avaliando esse livro como uma autora puritana que acha que essas coisas não deviam ser narradas, porque eu mesma já escrevi isso com uma profundidade que literalmente me tirou noites de sono e quebrou algo pra sempre dentro de mim. Eu quero deixar claro que estou lendo esse livro como quem acidentalmente aprendeu a escrever com essa prova de fogo, onde me queimei muito, mas aprendi demais também.
- RESENHA (com spoiler)
Dito isso, eu comentarei o livro de Letícia por partes, porque é difícil decidir o que falar primeiro.
Eu mal tenho o que falar da história em si, porque não existe uma história. Se você é escritor e está lendo essa resenha, eu quero fazer um combinado com você: teremos um consenso PERMANENTE de que uma narrativa com começo, meio e fim, não importa o tamanho dela, NÃO É formada por um aglomerado de acontecimentos e cenas que você foi costurando uma na outra como um pavoroso retalho criativo. Uma história PRECISA ser feita de acontecimentos encadeados, que se conectem de alguma forma e, PRINCIPALMENTE, façam seu enredo ir para frente. Narrar o dia de um personagem NÃO É contar uma história. Contar uma história é você me mostrar como aquela reunião de negócios levou o protagonista a ser promovido e mudar de país, o que fez com que ele conhecesse seu maior concorrente e sofresse uma tentativa de assassinato.
Me Apaixonei Pelo Meu Sequestrador é um exemplo perfeito de como pegar vários acontecimentos desconexos e colocar um após o outro para fazer parecer que eles têm alguma ligação. Se você não tem certeza se aquela cena está contando a história, basta se perguntar aquilo faria falta no desenvolvimento. Eu gostaria que Letícia tivesse se perguntado isso enquanto escrevia, porque aí pelo menos metade do livro seria descartado e talvez a gente tivesse um material um pouco mais aceitável. É claro que a gente adora colocar uma cena ou outra que não é realmente importante, mas pode ser divertida ou interessante, mas vale a pena se perguntar "que porra eu tô escrevendo?" quando metade do seu livro é feito de cenas assim, e a outra metade é uma história fraca (mas vamos deixar a cereja do bolo pro final).
Eu também queria que Letícia tivesse feito outra coisa básica antes de publicar o livro: revisar e diagramar. Os capítulos podem começar em qualquer lugar, TODAS AS PÁGINAS têm pelo menos um erro de digitação/ortografia/gramática/concordância e a leitura demora duas vezes mais porque você precisa contar os travessões no meio do parágrafo para saber qual personagem está falando.
E já que citamos os diálogos, eu também acredito que seria melhor para a obra se todas as personagens fossem mudas. Eu já li dezenas de livros e digo com tranquilidade que nenhum deles tinha diálogos tão artificiais e sem graça. As pessoas não precisam sempre começar uma conversa com "oi"/"oi", e cara... se você sente o dedo do autor no diálogo, ele falhou. Muitas vezes a conversa toma rumos totalmente não críveis só para conveniência da autora, para justificar ou desenrolar uma ação qualquer, o que só fica ainda mais deprimente quando lembramos que a maioria dos acontecimentos do livro são apenas narrações avulsas que não fazem diferença na história.
Os personagens são inconsistentes, a começar pela protagonista. Se ela não tem Alzheimer, então a autora certamente pensa que o leitor tem, porque não se passa um capítulo sem que a protagonista lembre que "eu, Carina Jórdan, estava fazendo qualquer coisa inútil para o desenvolvimento desse enredo e mesmo assim precisei repetir meu nome para reiterar que eu sou a grande Carina Jórdan". Repetir o próprio nome pode dar um ar especial se for feito em doses homeopáticas e em momentos certos, disso ninguém duvida, mas você começa a parecer problemático quando repete a todo momento quem é você, a não ser que seu personagem tenha um transtorno dissociativo ou algo assim, o que não era o caso. De qualquer forma, a protagonista não tem nenhum critério de comportamento e isso joga todo o (pouco) desenvolvimento de personagem no lixo, porque ela até pode parecer ter amadurecido aqui e ali, mas a qualquer momento ela pode voltar a agir como agia antes, por pura conveniência da autora. Letícia não respeita seus personagens, eles tomam qualquer atitude a qualquer momento que ela quiser. Por conta disso, nós temos pérolas dramáticas em que o papai bilionário se recusou a pagar o resgate da filha porque (nas palavras dele), "eu sabia que você ia conseguir se virar sozinha" (como se algum pai no planeta fosse ter essa tranquilidade ao saber que um criminoso famoso e dois capangas estavam com sua filha), mas impede a garota de sair sozinha quando ela volta pra casa porque quer garantir a segurança dela. Também temos a cena icônica em que a babá da protagonista fica horrorizada ao saber do romance entre a garota e seu sequestrador, mas decide chamar os dois para assistir filme e comer pipoca assim que pega o casalzinho se beijando.
As poucas coisas que realmente fazem o enredo andar são tão bizarras quanto o resto. Carina tem 16 anos e, quando seu pai bilionário, dono de uma multinacional, viaja para tratar uma doença terminal, ele decide que o melhor a fazer pela empresa é colocar sua filha, uma estudante de ensino médio, na presidência da empresa. Alguns capítulos mais tarde, a autora não parece achar estranho o fato de que a "tarefa urgente" da presidente adolescente (urgente o bastante para que sua mãe, em outro país, ligasse e pedisse que Carina parasse tudo para fazer aquilo) seja corrigir uma nota fiscal errada. Você não precisa estudar gestão empresarial por mais de 5 minutos para saber que problemas assim, em especial numa multinacional, nunca vão incomodar alguém acima da gerência (e isso nos casos mais graves). Letícia também não tem nenhum escrúpulo em narrar (apenas narrar, porque essa informação vem do nada e vai parar lugar nenhum) que um ex namorado de Carina (um adolescente assim como ela) terminou o relacionamento porque (ATENÇÃO) ele se mudou para Marracos para (ATENÇÃO) governar por lá.
Agora, a cereja do bolo. Sim, temos que falar sobre isso. Eu também não queria, mas precisamos. Temos que ter ~aquela conversa.
Que porra
De relacionamento
É esse???
????????
Repito, eu não tô aqui com uma visão puritana. Não posso apontar dedos pra quem sustenta arco narrativo em síndrome de Estocolmo, mas rapaz...
A garota não precisa de mais do que três dias pra se apaixonar perdidamente pelo sequestrador, o que dá em torno de uma hora completa de convívio entre eles. EU SEI que o que define esse ""amor"" não é a criação de um laço afetivo, e sim um revertério emocional em que aquela pessoa deixa de ser alvo de medo e inconscientemente vira o ponto de segurança (você não tem nenhuma certeza enquanto está cativo, exceto que aquela pessoa vai aparecer ou pelo menos está te observando). O ponto é que não tem esse revertério cerebral na história, e não adianta tentar me convencer de que cada um funciona de um jeito, esse tipo de relacionamento se baseia em TRAUMAS, e se você não criou um trauma, você tem um relacionamento de merda pra sua história de sequestro (que já seria merda mesmo com isso só pelo fato de romantizar esses traumas). No primeiro segundo a garota já pensa como seu sequestrador é ~apetitoso e, por algum motivo, o rapaz decidiu que ela era valiosa e especial em cinco minutos de diálogo (que se resumiu a "me deixar ir embora"/"não posso" em looping), mesmo que a protagonista não tenha nada além de dinheiro, beleza e um ego inflado, nenhuma qualidade que pudesse justificar esse imprinting instantâneo de alguém que devia estar acostumado há anos a sequestrar gente exatamente como ela. Sendo assim, embora o pai da vítima não pagasse o resgate (acarretando em uma dívida maior para o sequestrador a cada dia que passava), ele ainda providenciava roupas legais, maquiagem e chapinha pra ela. Ela tinha uma alimentação balanceada, roupa de cama limpa e direito a banho quente e demorado. Você não cria trauma de sequestro assim, e torna o romance ainda mais artificial.
Sem mais nem menos, a garota decide que quer abandonar toda a vida de bilionária dela pra fugir com um criminoso que ela conheceu há uma semana ou menos, simplesmente porque ele era gostoso e deixava uma chapinha no quarto dela (eles não tiveram chance de se conhecer de verdade nesse meio tempo, não dá pra falar que ela se apaixonou pela personalidade dele). A personagem, uma patricinha mimada que exigia ser chamada de rainha na escola, de repente quer abrir mão de tudo por um cara que a sequestrou e falou com ela por uma hora. Isso não é desconstrução de personagem, isso é conveniência porca. Nada explica essa mudança de comportamento. Não existe um trauma que gerasse uma dependência emocional severa, não existiu uma conexão REAL que justificasse isso. A autora escreve que houve essa conexão, é claro, mas eu não quero que você me diga que isso aconteceu, porque isso até aquela voz do google poderia me dizer. Eu preciso que você me mostre essa conexão se formando, e aí podemos acreditar mais em Carina.
Eu poderia passar horas só comentando as várias cenas desnecessárias que entopem o livro (a gravidez de uma amiga, a entrada de uma garota nova na escola, etc), mas eu acho que a essa altura você entendeu a profundidade desse buraco.
* A história em questão não é um romance e, embora o casal seja importante (tanto os indivíduos quanto o relacionamento em si), o livro (Neblina Mental) é uma fantasia levinha infanto juvenil. Eu reescrevi tudo aos 18 anos, tentando manter a fidelidade do que eu pensei aos 12, e sei que a história não é tudo isso, enxergo vários buracos, mas mesmo assim eu queria abrir essa obra para o público. Um dia sai.
Gabby Meister
[A resenha acima tem por único objetivo divulgar minha visão e opinião pessoal sobre o livro citado, e não visa ofender ou difamar ninguém, nem mesmo difamar a obra ou o autor dela. É apenas meu ponto de vista, questionável e discutível]
Ótima resenha. Seu senso de humor faz com que queiramos ler até o fim. Continue assim.
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