CAIXA DE PÁSSAROS/BIRD BOX, de Josh Malerman (resenha)
O hype de Caixa de Pássaros (Bird Box, que seja) durou muito tempo quando a Netflix lançou o filme (que eu nunca quis assistir) e, é claro, muita gente leu o livro na ocasião. O hype passou, ninguém mais fala disso (e vou dizer porquê, embora seja óbvio pra qualquer um que parou pra avaliar a obra e pensar 2 minutos), então quem decidiu ler o livro e escrever uma resenha só agora? Isso mesmo, euzinha <3
Contém alguns spoilers
BIRD BOX - PONTOS POSITIVOS
Vamos começar pelo que me surpreendeu positivamente. A premissa é boa: o mundo foi subitamente dominado por criaturas que enlouquecem as pessoas que olham para elas; por consequência, a humanidade afunda em uma distopia caótica em que todo mundo teve poucas semanas para se adaptar e tentar achar um modo de sobreviver. Ninguém tem certeza do que está acontecendo e nem até que ponto toda a histeria é justificada.
Quando pensamos apenas na trama geral, as coisas não acontecem do nada. Quando as crianças de Malorie parecem inicialmente espertas demais para fazerem o que fazem, quando parecem artificias demais para a idade, nós somos frequentemente revisitados pelo passado que mostra toda a preocupação da mãe mesmo antes do nascimento delas e, depois, vemos pouco a pouco o trabalho, o treinamento duro e complementamente justificando pelo qual as crianças passam. Aceitamos a trama sem muita resistência.
Aliás, mesmo com suas idas e vindas na linha temporal, a história é coesa e muito bem amarrada em sua proposta. Quando o livro termina, até as manchas na parede, citadas tão enfaticamente no primeiro capítulo, são explicadas e bem encaixadas na história. Cada personagem ou objeto é razoavelmente bem aproveitado (quase sempre; não pense que me esqueci daquelas buzinas inúteis, ou da caixa de pássaros que não teve utilidade de verdade). A trama é simples e se propõe a contar algo bem específico: a jornada de Malorie e os motivos que a levaram a sair de casa. Em geral, não há o que reclamar a esse respeito quando o livro acaba. Entendemos tudo o que queríamos saber sobre ela e suas duas crianças.
O autor (Josh Malerman) consegue narrar bem todos os (muitos, obviamente) momentos em que as personagens estão de olhos fechados, e sabe transformar uma folha caindo em um evento tenso até que se tenha certeza que foi mesmo apenas uma folha. Ponto para ele, a tensão cega é algo que eu não esperava encontrar tão bem feita, mas é um mérito de Caixa de Pássaros.
Os personagens, dentro de suas demandas, são bem desenvolvidos. Malerman consegue costurar suas ambições, histórias e emoções junto ao caos que as cerca, usando as brechas certas e não se prendendo mais do que o tempo necessário para nos contar quem são. Observe o desenvolvimento de Tom e você vai entender o que quero dizer: sabemos muito sobre ele, e mal percebemos que fomos descobrindo quem é Tom durante a história. É meio assim que tem que ser. Vale aqui ressaltar que ISSO é desenvolvimento de personagem; não tente fazer um infodump* desnecessário sobre seu passado triste, não é assim que funciona! "Costurar suas ambições, histórias e emoções junto ao caos que as cerca" é tudo o que se espera de um autor, e Josh sabia disso quando escreveu Bird Box.
BIRD BOX - PONTOS NEGATIVOS
Muitas coisas me incomodaram durante a leitura, e a primeira delas foi o ritmo da narrativa. Josh é lento demais e demora muito tempo para encontrar a velocidade certa de um suspense, quase perdendo nosso interesse, e, depois que consegue se assentar em um bom ritmo (lá pelo meio do livro), ainda ameaça cair. O começo do livro, é claro, deve apresentar o leitor ao mundo em que ele está entrando, mas isso não é desculpa para perder o ritmo. Aliás, isso é um ponto MUITO negativo: o ritmo da narrativa é literalmente o que faz o suspense ser suspense.
Josh tenta fazer suspense com coisas bobas que acabam se mostrando pura falta de manejo ao final, e o exemplo que mais me indignou foi o nome das crianças. Menina e Garoto são chamados assim por todo o livro, e só nas últimas páginas são chamadas pelo que serão seus nomes dali em diante, uma homenagem a pessoas que já morreram e ajudaram Malorie em vida. A justificativa, segundo a protagonista, é que agora as crianças "podem ter o luxo de coisas simples, como nomes". Seria legal, se fizesse sentido. Na proposta caótica da história, N A D A justifica essa idiotice de chamar uma criança por "Garoto" durante quatro anos. Pelo contrário, uma mãe sozinha com tanta coisa para resolver dificilmente se preocuparia em pensar essa besteira antes de negar por anos o nome dos filhos. Sério, chame de João e Maria e pronto, muito menos trabalhoso que dar toda essa volta infundada para chegar em Garoto e Menina. No fundo, Josh quis esconder os nomes até o final, talvez para comover o leitor com as homenagens, mas não soube como fazer isso e colocou a primeira desculpa burra que passou pela cabeça.
Quando paramos de pensar na história de Malorie (que é objetivamente interessante e bem contada) e olhamos para a construção do universo, percebemos que o bom trabalho de Josh terminou em Malorie mesmo. Entendam uma coisa, RAROS suspenses continuarão sendo bons se não derem as respostas no final. Existem casos onde o charme é deixar perguntas em aberto, é claro. Quem já assistiu Inception (A Origem) não me deixa mentir. Porém, pra deixar respostas em aberto, você precisa que as perguntas sejam mais intrigantes que a solução em si, como aconteceu no filme de Christopher Nolan. Não é o que acontece em Bird Box, mas o autor jura de pé junto que fez um ótimo trabalho ao não dar nenhuma explicação sobre o que são as criaturas, como elas funcionam, de onde vieram ou por que nem todo mundo se afeta (aparentemente). O suspense pedia essas respostas, a partir do momento em que as perguntas são absurdamente básicas e desinteressantes por si só. Alguns personagens erguem boas teorias, em geral pouco exploradas pelo autor e ignoradas pela protagonista, via de regra. Um suspense pede que você termine pensando coisas que não pensava no começo, mas isso não acontece. O leitor não tem nada novo para deduzir ou digerir quando fecha o livro, e É POR ISSO que Bird Box foi uma explosão na mídia, mas desapareceu tão rápido quanto surgiu. É um suspense que não deixa marcas, o que é sinal de um péssimo suspense e, bom, se você lê 200 página e não sabe o que temer, também deixa de ser um terror. Você relaxa pela apatia.
O autor nos insere em um universo com potencial, mas simplesmente não se importa o suficiente para nos contar o básico. Entendo que a história de Malorie foi contada com mestria, mas ninguém leu até o final por causa dela, ou das crianças. Ninguém começou a ler por causa dela, na verdade. Se Josh tivesse escrito mais algumas dezenas de páginas, aproveitando o respiro de Malorie para nos mostrar o que acontecia atrás dos cobertores na janela, essa resenha podia ser muito diferente, mas ficou por isso mesmo. Malorie passa quatro anos sem dar a mínima para o mundo lá fora, e o autor pensou que o leitor teria o mesmo descaso.
Por fim, a cereja do bolo é um aviso: PESQUISEM ANTES DE ESCREVER. Josh se propõe a escrever sobre uma mulher que passa metade do livro grávida e dá à luz, mas claramente não faz a menor ideia do que é uma gestação, seja pela vivência ou pelo básico de biologia. Se você não pode gerar ou nunca gerou uma criança, mas quer protagonizar um livro pelo ponto de vista de uma gestante, o mínimo que eu espero é que você busque saber como é a experiência. Busque saber por várias fontes, consultando várias pessoas que geraram um bebê, porque é algo subjetivo demais para você decidir tão rápido como sua personagem vai vivenciar tudo.
Em primeiro lugar, chega a ser irresponsável agir como se realmente fosse impossível parir sem ajuda médica, como o livro sugere a cada poucos capítulos, mas até aí eu posso (com ressalvas) entender como o medo da própria protagonista, embora seja nítido que é puro desconhecimento do autor. Em segundo lugar, você não precisa saber muito sobre partos para perceber erros grotescos: NINGUÉM vai ter o instinto natural de se deitar para parir. Isso é uma conduta médica (já comprovadamente ineficaz e perigosa para bebê e parturiente) que não reflete a natureza: é uma posição antinatural e desconfortável. Pode acontecer de a pessoa ficar apavorada demais para sair da posição, mas nesse ponto eu já sabia que era pura preguiça do autor de pesquisar. Aliás, um primeiro parto que dura cerca de cinco horas (deduzo pelos acontecimentos paralelos do livro) é quase impossível, e acontece com duas mulheres ao mesmo tempo. Sério, Josh, era tão difícil procurar saber quanto tempo dura um trabalho de parto? Sinto muito se o tempo natural das coisas te deixaria com horas demais para manejar, mas isso é problema seu. Você se propôs a narrar um trabalho de parto, estão esteja preparado para instigar o leitor pelas próximas 12, 14 horas.
Eu pensava que o trabalho de parto seria o mais vergonhoso, o auge da falta de biologia básica, mas então eu me vi gargalhando por constrangimento: um suicídio por enforcamento com um cordão umbilical. Sério, eu não pude acreditar. Para quem não sabe, o cordão umbilical tem a textura e quase a resistência de macarrão cozido (é por isso que bebês NÃO MORREM e não sofrem nenhum risco por conta de circular de cordão em seu pescoço durante o parto), então não é preciso muita inteligência para saber que um cordão umbilical NÃO teria como sustentar o corpo de alguém e, acredite, Josh quis me convencer de que o corpo ainda balançava com o vento uivante, sem que o cordão se partisse. Josh SABIA que estava falando de um material mole, tanto que momentos antes conta que o cordão foi partido com os dentes (o que é possível), mas depois ignora isso e usa esse material como se fosse uma corda de escalada. Eu só pude gargalhar. Pelo amor de deus, é biologia básica. Apenas o básico.
No fim das contas, Josh me pareceu mais um daqueles casos em que um autor branco do primeiro mundo tinha dinheiro para investir, encontrou os contatos certos e teve um reconhecimento muito maior do que merecia. Apesar dos pontos positivos, os problemas de Caixa de Pássaros batem em pilares VITAIS pra existência de qualquer terror/suspense: ritmo. Explicações. Desenvolvimento. Motivações coerentes. É um livro absolutamente mediano.
Avaliação técnica/objetiva: 3/5 estrelas
Avaliação pessoal/subjetiva: 2/5 estrelas (eu queria muito ler um bom suspense/terror e me decepcionei mais do que devia; além disso, não gostei da protagonista e de quase nenhum personagem, então os pontos bons da história não me cativaram, o que é uma opinião minha e não um problema do livro)
*Infodump é quando o livro metralha o leitor com diversas informações em momento inoportuno, normalmente destruindo o ritmo da narrativa. Não basta apenas vomitar as informações no livro e esperar que façam sentido; o leitor só vai dar importância quando aquilo aparecer no momento certo, do jeito certo e na dosagem certa.
Gabby Meister
[A resenha acima tem por único objetivo divulgar minha visão e opinião pessoal sobre o livro citado, e não visa ofender ou difamar ninguém, nem mesmo difamar a obra ou o autor dela. É apenas meu ponto de vista, questionável e discutível]
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