LUCÍOLA, de José de Alencar (Resenha e Análise de cunho social)

Eu decidi que faria a resenha deste livro, mas passei um bom tempo pensando se realmente faria isso. Este post terá duas partes: a resenha, onde desconsiderarei minhas críticas sociais e falarei especificamente sobre o livro. Na segunda parte, farei minha análise de cunho social (e histórico, de certo modo).

Resenha
O livro é escrito por um consagrado autor brasileiro do século XIX, José de Alencar, e por isso [o livro] Lucíola é considerado um clássico da literatura nacional.
Pois bem, a meu ver, Lucíola é basicamente um drama. É romance, mas é também um (enorme) drama. Infelizmente, esse acaba sendo um ponto baixo do livro: o drama apenas se repete, arrumando em si mesmo uma desculpa para continuar se reproduzindo, e a história só sai desse círculo dramático nas últimas páginas. É muitas vezes repetitivo e cansativo e, embora as coisas fiquem tristes e um pouquinho surpreendentes no final, não estou certa de que isso compensa todas as voltas que o livro deu.
Lucíola é escrito em capítulos curtos, algumas vezes interrompidos em bons momentos, e em outros casos a divisão não se faz exatamente necessária, mas isso não atrapalha a leitura. O livro, embora tenha poucas páginas, não é de fácil leitura (a menos que você pegue uma versão com a linguagem atualizada. Do contrário, lerá o livro nas palavras do tempo em que foi escrito). Ainda assim, vale a pena o esforço de ler a história em sua linguagem original. Do contrário, acho que se perderia muito da experiência.
Algo que me incomodou muito em Lucíola é o uso excessivo e desenfreado de metáforas. Gente, figura de linguagem é tempero do livro, tá? Deve ser usado com parcimônia e serve para enriquecer a leitura, deixar mais gostoso, mas tudo em excesso faz mal, inclusive isso! Vale lembrar que metáfora ocupa espaço no livro e tempo de leitura, e por isso deve ser pontual e bem colocada, afinal, não acrescenta nada novo. Quando um livro é tão esturricado de metáfora (e metáforas longuíssimas, diga-se de passagem), a leitura demora para fluir e isso deixa tudo ainda mais cansativo. 
Bom, se eu tivesse que fazer um feedback geral do livro... a história é meio fraca na maior parte do tempo (para nós, é claro. Na época com certeza foi um romance surpreendente), mas melhora um pouquinho se você tiver paciência. Infelizmente, os melhoramentos aumentam na mesma proporção que o drama, o que o deixa quase insustentável no final. Meu feedback é uma pergunta, que inclusive puxa minha análise de cunho social: clássicos valem a pena simplesmente por serem clássicos?

Análise de cunho social
Lucíola precisa urgentemente ser discutido, e o fato de ser um clássico não o exime dessa necessidade. Temos que perder esse péssimo hábito de continuar enaltecendo certas obras apenas porque são clássicas.
Entendam uma coisa: a arte em geral pode ter tido grande serventia em seu tempo. Pode ser de extrema importância para entendermos o contexto sociocultural em que a obra foi feita. Mesmo que não tenha mais nada a acrescentar em um contexto mais contemporâneo, - e esse é exatamente o caso de Lucíola - ainda assim o livro pode ser lido, mas não sob a ótica de uma análise louvável e cega que o título "clássico" induz. 
Lucíola merece muitos questionamentos. Não devia ser reproduzido exceto para análise de contexto sociocultural do século XIX e, quando for lido, não deve ser considero uma obra "canonizada". Lucíola romantiza prostituição infantil, machismo, submissão feminina mesmo em situações já suficientemente humilhantes, etc. Se isso era "normal" em um romance do século XIX, é inaceitável dentro das demandas sociais do século XXI. É impossível pensar em história sem levar em consideração as demandas do presente, e por isso é inaceitável dizer que Lucíola pode ser lido até hoje sem qualquer mudança de ponto de vista.
Lucíola deve ser lido de modo crítico hoje em dia, não endeusado. Já não vale a pena lê-lo simplesmente porque ele é um clássico da literatura nacional, pois Lucíola já não tem nada para nos acrescentar em termos literários. Em termos históricos sim, sem dúvida. Até mesmo sociais, se entendermos Lucíola como (repito) algo a ser criticado e corrigido. 
Até mesmo a repercussão que o livro teve merece questionamento. Em 1975 lançaram uma nova versão, entitulada "Lucíola, o Anjo Pecador". Se você já leu o livro, pense nesse título por um minuto. Pense sobre a história de Lúcia e me diga se esse título realmente parece aceitável. É exatamente sobre isso que temos que discutir.
A serventia de Lucíola, nos dias de hoje, precisa urgentemente ser repensada.

Gabby Meister

[A resenha acima tem por único objetivo divulgar minha visão e opinião pessoal sobre o livro citado, e não visa ofender ou difamar ninguém, nem mesmo difamar a obra ou o autor dela. É apenas meu ponto de vista, questionável e discutível]

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